Pelé e Clarice Lispector
Luis Fernando Verissimo
Brasileiro em viagem fica defensivo. Ter de explicar que no Brasil se fala português, não espanhol, e portanto não nos venham com “buenos dias” e “hasta la vistas”, é um incômodo menor. Pior é a mistura de sentimentos quando nos identificam com coisas das quais nos orgulhamos – bom futebol, Carnaval, mulher pelada! – mas que também despertam um certo ressentimento e a vontade de acrescentar que não somos só isso. Não foram poucas as vezes em que disseram “Pelé” quando eu revelei de onde vinha e eu quase respondi: “Sim, e Clarice Lispector”.
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No fundo, o ressentimento é com a síndrome da Carmem Miranda, que continua. Gostávamos de ver a Carmem Miranda no cinema americano e o sucesso que sua brasileirice fazia na terra do Tio Sam, mas nunca nos livramos do embaraço de sermos representados por uma caricatura. O que antes era reduzido a uma falsa “carioca” com um bananal na cabeça, hoje é sintetizado no símbolo tropical em evidência no momento, seja o jogador que “joga no ritmo do samba” (ainda o clichê jornalístico mais usado na Europa quando se trata de brasileiros) ou o músico em destaque, mesmo que, claro, um Caetano Veloso ou um Seu Jorge não signifiquem agora a mesma coisa que a Carmem Miranda significava antes. O que ficou, a síndrome, é a simplificação que desdenha tudo o mais que nós somos e que parece não fazer a menor diferença para o mundo. A começar pelo nosso tamanho.
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Reagir à simplificação acaba sendo uma quase cômica insistência na nossa complexidade, como se ser complicado fosse uma condição para ser levado a sério e ter a consideração do Primeiro Mundo. Assim, até o sucesso de Lula na Europa acaba sendo visto por nós como mais uma deturpação simplista do que é o Brasil – como as bananas da Carmem Miranda. Mais uma redução da nossa complexidade a um símbolo tropical que pode ser entendido sem muita explicação. Visto de lá, a ascensão do Lula foi uma revolução social que se completou na eleição, e ele é visto como a grande novidade para a desiludida esquerda europeia, revitalizadora como qualquer outro retorno às coisas simples. E você se vê argumentando com eles que nada é tão simples assim, que a coisa é mais complicada, enfim, que não somos um país redutível a nenhum tipo de caricatura, mesmo as bem-intencionadas.
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Quando em perguntavam, eu concordava que a eleição do Lula no Brasil tinha a mesma importância da eleição do Mandela na África do Sul – alguém do outro lado do apartheid rompendo uma barreira histórica – mas que esta vitória ainda estava longe de representar uma mudança inspiradora vinda do Novo Mundo, dadas as nossas complexidades profundas. Em outras palavras, diziam “Pelé” e eu dizia “Sim, e Clarice Lispector”.
SEU POMPOM
Foi só alguns dias antes do casamento que a Marcinha avisou ao Eliseu que dormia com um ursinho. Que tinha o ursinho desde criança e que não podia ir para a cama sem ele. O Eliseu achou graça. Estava tão apaixonado que qualquer coisa que a Marcinha lhe dissesse – mesmo “Faço xixi na cama” ou “Ronco a noite inteira” – ele aceitaria, e acharia graça. Marcinha era mesmo uma criança, apesar dos seus 24 anos. Fora aquilo que o atraíra nela. No fundo era uma criança, ingênua, inocente. Como era o nome do ursinho? “Seu Pompom” respondeu a Marcinha.
- Pois terei grande prazer em dormir com o seu Pompom – disse o Eliseu, enternecido.
O ursinho foi com eles na lua-de-mel e acabou sendo um surpreendente acessório nos jogos do amor. O Eliseu não imaginava que pudesse ficar tão excitado com as frases que ouvia do Seu Pompom, na voz da Marcinha cada vez que terminavam de fazer amor, durante a lua-de-mel. “Isso foi muito bom. O seu Pompom gostou muito. O seu Pompom quer mais”. Depois, em casa, era o seu Pompom, manipulado pela Marcinha, que acordava o Eliseu, quando a Marcinha queria mais. E seu Pompom acordava o Eliseu várias vezes por semana. Depois dizia: “O seu Pompom gostou. O seu Pompom gostou muito. O seu Pompom quer mais”.
Eliseu não se conteve e um dia contou, numa roda de amigos, o que era a vida sexual, com a participação do seu Pompom. Era óbvio que sua mulherzinha, a Marcinha, usava o ursinho para ajudá-la a vencer suas inibições e sua inexperiência no sexo. E o seu Pompom se revelara um parceiro sexual maravilhoso. Maravilhoso.
Todos na roda se entreolharam. Todos conheciam bem a Marcinha. E quando o Eliseu foi embora um deles falou:
- Espera até ele conhecer o lado crítico do seu Pompom.
Domingo, 24 de outubro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.